Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
O Conde de Abranhos foi escrito por Eça de Queirós.
Tinha as expectativas elevadas. Foi-me recomendado por dois professores do Secundário e mais recentemente por um amigo. Digo-vos vale bem a pena. É um livro de crítica e sátira à classe política do século XIX, mas podia ser de 2017.
História
A história é uma biografia do Conde de Abranhos, que chegou ministro da Marinha. É escrita pelo seu secretário, sempre muito elogioso e glorificador do Conde (ora não ficasse para a posteridade). É-nos relatado o percurso de vida, desde a família onde nasceu, a vida de estudante, a negação dos pais pobres e analfabetos, o casamento sem amor (ou melhor por amor ao dinheiro e aos amigos influentes do sogro), a ascensão partidária e na carreira, a esperteza dos "amigos" e a nomeação a ministro, sem que perceba nada de Marinha.
Opinião
As elevadas expectativas cumpriram-se.
Este livro é um deleite, relativamente curto e o Conde Abranhos parece inspirado numa história real.
- Ironia
Os exageros, a vassalagem, o realismo cru na podridão política e a crítica implícita são do melhor.
- O "ministro" que nega os pais pobres e plebeus
"Como estadista, a presença na sua casa daquele pai de feição reles, a comer arroz com faca, a escabichar os dentes com as unhas, só serviria a autoridade moral do Conde e o prestígio do seu talento". "Só receberia o pai em sua casa, com a condição de nunca aparecer aos jantares". Claro que a compaixão tinha de estar presente, como homem cristão, enviando a esmola ao pai plebeu.
- O abandono da amiga colorida grávida
O Conde estudou Direito em Coimbra e envolveu-se com uma empregada da casa onde estava hospedado. Esta engravidou e este ignorou-a, pois não tinha o estatuto nem lhe traria qualquer beneficio. "naquele espírito nobre sempre houvera horror a miseráveis".
- O casamento por interesse
É intencional o modo como é descrita a família e o que despertou o interesse do Conde na sua futura mulher. Uns sogros de feitio intragável e uma jovem desinteressante, mas com influência política e financeira que o ajudariam a subir na vida e carreira.
- A aproximação interesseira ao padre
Para ganhar crédito de genro perfeito, o Conde foi viver para casa do padre, pois este tinha influência positiva na família. Todas as famílias influentes tinham o "seu" padre.
- Os meios para ser eleito deputado por Freixo de Espada à Cinta
Vivendo em Lisboa, renegando a familia de Penafiel e estudando em Coimbra, propuseram-lhe chegar a deputado por ... Freixo de Espada à Cinta: "tendo-se informado com cuidado dos nomes das pessoas influentes de FEC, a todas escreveu, oferecendo a sua influência, os serviços da sua eloquênicas e a sua casa" "Naturalmente logo que o conde foi nomeado Par do reino, esta benevolência findou e livrou-se para sempre "daquela cambada de carrapatos"".
- A ânsia do poleiro
Eis como é descrito o desejo de todos os que rodeiam o conde que ele chegue a ministro: " a pensão de reforma da D. Amália, o emprego do sobrinho da D. Joana, as ascensão canónica do Padre Augusto, os serviços do "Doutor", a ascensão social da esposa e da sogra à corte.
- A troca de favores na política
"Todos sabiam por compromissos antigos que a pasta da Marinha seria dada a Abranhos.
- A ascensão sem mérito
O conde era de Direito, mas foi nomeado Ministro da Marinha sem perceber nada da Marinha: "Notai que o Conde não era um Homem do Ofício". Só viu o mar aos 21 anos, tinha "antipatia" por ele", "sempre detestou o mar", "o horror do conde a navios era invencível", desvaloriza a geografia "nunca compreendeu cálculos estranhos de graus, latitudes e longitudes, nem dava grande crédito à ciência da navegação" e para perante uma gaffe de não saber onde ficava Moçambique (à época, colónia), diz "que fique na costa ocidental ou oriental, nada tira a que seja verdadeira a doutrina que estabeleço".
O livro é uma sátira à classe política do século XIX, mas podia ser de 2017, pois como o próprio dizia, as moscas mudam, mas a ... é a mesma. Portugal não evoluiu muito, pois conseguimos rever a classe política portuguesa, os "jotinhas" nesta personagem de fictícia tem muito pouco. Vale bem a pena!